
Esta é a história daquele que representa a raiz da roseira, a sustentação da árvore, a base de sistemas de crença fundamentais, o patriarca de três religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.
Conhecido como “o pai das multidões”, “o pai das nações” ou “o pai dos crentes”, Abraão nasce em Ur, uma cidade que atualmente se localiza no Iraque ou que hoje integra o território onde se encontra a Turquia, na atual Urfa. Os relatos são diversos, e sabe-se que ele faz parte de uma família cuja ascendência remonta a Noé.
De acordo com o Alcorão, ainda criança Abraão desafia os idólatras. “Adorais, em vez de Deus, o que em nada vos beneficia?”, questiona Abraão depois de fazer em pedaços os ídolos que eram adorados por muitas pessoas na região onde ele vivia. Enfurecidos, os que o acusavam da destruição de seus ídolos determinam que ele seja queimado e lançam-no em uma fogueira, mas Deus o salva. O Alcorão diz:
“Dissemos: Ó fogo, sÊ frescor e paz sobre AbraÃo”.
Abraão sobrevive ao fogo, que não lhe provoca nenhuma queimadura, para a surpresa de todos os que assistiam à cena. Deus, que ordenara ao fogo que não o queimasse, garante a salvação e a segurança de Abraão.
Durante toda a vida, Abraão foi um homem que refletiu muito sobre Deus. A princípio, costumava olhar para o céu, ver um planeta e por um tempo pensar que ali poderia estar Deus. Depois, o planeta não podia mais ser visto e ele refletia que Deus não desapareceria jamais. Em seguida, avistava a Lua, maior e mais visível, mas na manhã seguinte ela também se ia. Também observava o Sol, radiante, a emanar calor, e ponderava que ali talvez pudesse estar Deus. Mas o Sol também parecia se recolher à noite, e o Senhor não haveria de sumir.
Abraão sempre pedia a Deus que o guiasse e que permitisse que ele pudesse enxergar a senda reta, o caminho correto.
De acordo com o Gênesis, um certo dia Deus dirige-se a Abraão e lhe diz:
“Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abenÇoarei, engrandecerei teu nome; SÊ uma bÊnÇÃo! AbenÇoarei os que te abenÇoarem... Por ti serÃo benditos todos os clÃs da terra”
Esta fórmula, que exalta a benção dos clãs ou nações em Abraão, aparece diversas vezes nos textos sagrados.
Aos 75 anos, nosso amigo ouve e acata a orientação de Deus para que deixe sua cidade e vá para uma terra especial, que Deus promete que pertenceria a seus descendentes. Acompanhado de parentes e de Sarai (depois chamada de Sara), Abraão parte de sua cidade natal. Seus familiares vão com ele para Harran, uma localidade próxima que se localiza mais ao norte.
Quando seu pai, Taré, morre, aos 205 anos, Abraão prossegue rumo à terra que Deus lhe prometera, a terra de Canaã. Muitos são os percalços, as dificuldades, mas ele prossegue, firme e dedicado, mesmo sem compreender todos os desígnios de Deus.
Dez anos após sua partida, apesar das promessas divinas de que sua descendência seria extensa, Abraão continua ainda sem nenhum filho. Ao lamentar tal sina, Deus lhe diz, conforme revela o Gênesis:
“Ergue os olhos para o cÉu e conta as estrelas, se as podes contar. Assim serÁ a tua posteridade.”
Como Sara ainda não lhe dera nenhum filho, Abraão deita-se com a egípcia Agar, que dà à luz um menino chamado Ismael, ou Ishmael, que significa “Deus ouve” ou “Que Deus ouça”. Abraão tinha 86 anos quando Agar o fez pai de Ismael.
Um certo dia, quando se encontrava sentado à entrada de sua tenda, Abraão vê três visitantes se aproximarem. Na mesma hora, ele corre ao seu encontro se e dispõe a lavar-lhes os pés e a oferecer-lhes comida e bebida, como forma de demonstrar sua hospitalidade, conhecida e celebrada nos textos sagrados. Aos recém-chegados, oferece pão, coalhada, leite e vitelo.
Depois que terminam de comer, começaram a conversar. Um deles, que na realidade era o próprio Senhor, anuncia que Abraão teria mais um filho, desta vez com Sara.
Ao ouvir a notícia, Sara ri da idéia, pois acha que não tem mais idade para conceber uma criança. O menino seria chamado de Isaac, ou Ishác, que significa “riso”.
Nessa época, Ismael tinha 13 anos, Abraão tinha 99 anos e Sara 90. Ora, Abraão se questiona como poderia, naquela idade avançada, gerar filhos, e ainda por cima com uma mulher com idade semelhante.
Ao notar os questionamentos e as dúvidas do casal, Deus lança uma pergunta e confirmar sua decisão, no Gênesis:
“Ergue os olhos para o cÉu e conta as estrelas, se as podes contar. Assim serÁ a tua posteridade.”
“Acaso existe algo de tão maravilhoso para Iahweh? Na mesma estação, no próximo ano, voltarei a ti, e Sara terá um filho”.
“Eis a Minha aliança contigo: serÁs pai de uma multidÃo de naÇÕes. E nÃo mais te chamarÁs AbrÃo, mas teu nome serÁ AbraÃo, pois eu te faÇo pai de uma multidÃo de naÇÕes. Eu te tornarei extremamente fecundo, de ti farei naÇÕes.”
AbraÃo tinha 100 anos quando nasce Isaac. Ao comemorar, Sara diz: “Deus me deu motivo de riso, todos os que souberem rirÃo comigo”.
Quando Deus diz a Abraão que ele seria pai novamente, determina que o sinal daquela aliança fosse a circuncisão dos homens. Como prova de sua fé, Abraão não hesita, circunda-se a si próprio e ordena que todos de sua tribo e de seu entorno sigam seu exemplo: seu filho Ismael, todos os familiares e os escravos são circuncidados. Pouco depois do nascimento de Isaac, ao completar oito dias, o menino também é circuncidado. Até hoje, judeus e muçulmanos praticam a circuncisão por causa do pedido que Deus fizera a Abraão.
Após o nascimento de Isaac, segundo o Gênesis, Sara pede a Abraão que mande embora Ismael e Agar. Ambos caminham pelo deserto e, quando o pão e a água que Abraão lhe entregara terminam, Agar se desespera e chora.
Deus lhe diz, de acordo com o Gênesis:
“NÃo temas, pois Deus ouviu os gritos da crianÇa, do lugar onde estÁ. Ergue-te! Levanta a crianÇa, segura-a firmemente, porque eu farei dela uma grande naÇÃo”.
Deus abre os olhos de Agar e ela enxerga um poço, do qual dá de beber ao menino.
Na tradição muçulmana, a expulsão de Agar e Ismael é ordenada por Deus, não por Sara, porque essa determinação viria a permitir o desenvolvimento do Islã. Abraão lhes entrega tâmaras e água e leva Agar e Ismael à localidade onde atualmente fica a cidade de Meca, na Arábia, naquela época um vale sem vegetação nem água, completamente deserto, entre duas rochas. Ao chegar ao destino final, Agar lhe pergunta se Deus que determinara que eles fossem deixados ali sem provimento suficiente. Abraão diz que sim. Agar se mostra resignada e afirma que Aquele que emitira tal ordem não haveria de abandoná-la nem ao seu filho com Abraão. Quando as tâmaras e a água acabam, Agar sobe em um dos montes, chamado de Safa, na tentativa de buscar, lá do alto, em algum ponto daquele vasto território, comida ou água. Sem obter sucesso nessa primeira tentativa, dirige-se ao outro monte, Al-Marwah, e lá do alto mais uma vez inicia sua procura. Nada avista. Desesperada, diante do choro de seu filho por causa da fome e da sede que aumentavam a cada momento, ouve vozes e afirma que necessita de ajuda. Quando o anjo lhe pergunta quem é ela, Agar explica que é a mãe do filho de Abraão. “A quem Abraão a confiou?” pergunta-lhe o anjo em seguida. Ao que Agar lhe diz: “Fui entregue aos cuidados de Deus”.
Logo depois de o anjo completar que, dessa forma, ela estava sob a proteção de Deus, o Misericordioso, o Misericordiador, Agar observa jorrar água próxima aos pés de Ismael. A água atrai pássaros e beduínos árabes que pedem permissão para acampar no local. Assim se origina a cidade de Meca.
Na tradição muçulmana, Abraão pede proteção para o filho e sua mãe e não abandona Ismael à proteção exclusiva de Deus. Visita o filho regularmente e o instrui a crer no Deus único. Em um desses encontros, Deus ordena que Abraão e Ismael reconstruam um antigo templo erguido por Adão. Quando isso é feito, Deus determina que Abraão comunique ao mundo inteiro que todo crente deveria ao menos uma vez na vida fazer a peregrinação àquela localidade. Quando Abraão começa a anunciar o que Deus lhe pedira, o som de suas palavras é tão estrondoso que elas se fazem ouvir nos quatro cantos do mundo. Desse modo, inicia-se a peregrinação a Meca.
Em uma das passagens mais conhecidas dos livros sagrados, que demonstra a fé, a submissão e a obediência de Abraão à vontade divina, Deus o põe à prova e proclama, de acordo com o Gênesis:
“Toma teu filho, teu Único, que amas, Isaac, e vai À terra de MoriÁ, e lÁ o oferecerÁs em holocausto sobe uma montanha que eu te indicarei.”
Abraão faz tudo exatamente como determinado. Levanta-se cedo, sela o jumento e parte com dois de seus servos e o filho. Racha a lenda do sacrifício e põe-se a caminho do lugar indicado por Deus.
Na montanha que Deus designara, Abraão constrói o altar, prepara a lenha para a fogueira, amarra o filho e o coloca sobre o altar. No momento do sacrifício, no entanto, ouve o anjo do Senhor dizer:
”Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus: tu não me recusaste teu filho, teu único”
O menino é poupado e um cordeiro é oferecido em seu lugar.
A tradição muçulmana é muito semelhante, mas o filho oferecido em sacrifício como testemunho de fé é Ismael, e o local onde a história acontece se encontra próximo a Meca, em Mina. Na hora exata do sacrifício, o anjo aparece e substitui Ismael por um carneiro. Muitos oferecem carne a familares, amigos e desfavorecidos para recordar a disposição de Abraão de sacrificar o filho como prova de lealdade a Deus.
As pequenas divergências nos relatos de judeus, cristãos e muçulmanos são detalhes, O importante nessa narrativa são os pontos ligação, muito mais próximos do que as pessoas costumam imaginar. A figura central de Abraão, o pai de multidões, de fato, e os valores a ele associados, como a fé, a esperança, a obediência a Deus, a hospitalidade e o respeito à diversidade podem servir de exemplo para que os seres humanos todos, indenpendente da religião, da aparência, do sexo, da condição social e da origem se vejam e sejam tratados como irmãos. Irmãos em Abraão nesta grande família da humanidade, a família de Abraão.